quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Batismo de sangue - Filme

Vou começar a postar material sobre a ditadura militar. Achei este texto interessante por ser um processo como o nosso na preparação para a montagem de nossa peça.
O endereço de onde estava o texto é: http://ideiadoator.sites.uol.com.br/batismo.htm

Processo da preparação de elenco do filme Batismo de Sangue

Sergio Penna

Quando eu estava realizando um curso de interpretação em Belo Horizonte, no Galpão Cine Horto, em final de 2004, fui chamado para a primeira reunião com o cineasta Helvécio Ratton.

Não tinha lido até então o livro de Frei Beto. Daquele período, guardava em minha memória a indignação. Sou de uma geração imediatamente posterior àquela dos anos 60. Lembro que em 77, quando fazia Ciências Sociais na PUC de São Paulo, tivemos uma invasão arbitraria do então coronel Erasmo Dias e seu batalhão, trazendo para muito perto de nós um pouco dos equívocos políticos e humanos, frutos da ditadura.

Senti naquele encontro com Helvécio toda a profundidade, a seriedade e o cuidado com que ele já se pronunciava sobre o tema do filme.

Os contatos com a direção são importantíssimos, pois eles vão delinear uma trajetória conjunta em busca de um elenco afinado e sintonizado. Desde saída alguns tópicos deram o norte: a humanização de todas as personagens, incluído torturados e torturadores, fugindo de qualquer caricatura ou superficialidade e a opção por uma interpretação naturalista que nos passasse com verdade os sentimentos daquela época.

Saímos com a certeza de que por tratar-se de um filme de época, caberia aos atores um profundo mergulho para reatualizarem conceitos e sentimentos como opressão, luta, humilhação, resistência, solidariedade, utopia, que mesmo após tantos anos continuam atuais.

Quando recebi o roteiro, procurei fazer uma espécie de decupagem dramática destacando os caminhos individuais de cada personagem, traçando um roteiro subjetivo que corresse paralelo ao roteiro já escrito mas que privilegiasse as lógicas internas.

A preparação do elenco aconteceu durante dois meses em Belo Horizonte, buscando junto com os atores uma minuciosa e detalhada investigação da época e das personagens a serem vividas.

No meu trabalho gosto de ensaiar em ordem cronológica do roteiro, procurando compor a personagem pouco a pouco provocando no ator uma reação às várias situações que a narrativa propõe, que vão gradativamente proporcionando uma visão mais clara de quem é a personagem e de seu destino Quanto mais intenso for o processo do ator em cada situação, mais ele vai se aprofundando, fazendo literalmente um mergulho, imprescindível para se chegar na força trágica de cada personagem. Para tanto, não trabalho as cenas propriamente ditas, procuro me concentrar nos momentos pré e pós cena, onde podem ser encontradas todas as motivações e conseqüências das ações das personagens. Este foco mais solto do texto, diálogos e marcações dão ao ator a possibilidade de experimentar vários desdobramentos de um conflito, criando um repertório que será muito útil no set.

Em outros filmes que fiz, o roteiro não foi entregue aos atores propositalmente buscando-se obter entre outras coisas um resultado colaborativo do ator em relação a dramaturgia. Em Batismo optou-se pela entrega do roteiro inclusive porque ele já estava suficientemente amadurecido e era uma peça inicial importantíssima para adentrar naquele universo, com contexto social, político e humano tão singular.

Além do estudo do roteiro, os atores tiveram acesso a livros, documentos e vídeos da época, na fase inicial de imersão no tema, no intuito de termos a dimensão da ação dos indivíduos daquela época e de suas conseqüências, a ideologia e a fé das personagens, e o nível de crueldade e sofrimento desencadeados pela ação da repressão policial e institucional.

Os frades dominicanos

O primeiro movimento em relação aos atores foi aproximá-los da religiosidade e do modo de sentir, pensar e agir no mundo dos dominicanos.

Individualmente cada ator começou a ler trechos da Bíblia, escutar cantos gregorianos, ir a missas, tentando mudar ou aprofundar hábitos cotidianos ligados ao olhar, a observação, a meditação, dando espaço para a relação com um tempo diferente do nosso dia a dia tão preso ao cronométrico e ao ordinário,

tomando contato com um tempo diferente, um tempo mítico e sagrado.

Passamos a ritualizar nossos ensaios com musicas, orações e silêncios. Foi uma etapa de pesquisa de subjetividades, com a criação de uma espécie de lastro interno, que ampliaria a disponibilidade para uma construção de personagens plena de densidades e sutilezas. Lembrando sempre que cada etapa era formulada respeitando-se as necessidades e desejos de cada ator.

Nesta linha de trabalho programamos uma visita ao convento do frades dominicanos em BH. Fomos recebidos com um almoço delicioso, acompanhado de aperitivo e sobremesa. Logo depois os atores puderam andar pelos corredores, sentar nos jardins, olhar a paisagem pelas janelas, testemunhar o dia a dia dos frades, ler na biblioteca (que contém raridades da época, com fotos e depoimentos inéditos sobre a vida dos dominicanos, incluindo o apoio de infra estrutura dado ao grupo de Mariguella), orar na capela, conversar ou simplesmente ficar em silencio absorvendo toda a espiritualidade que estava impregnada nos tetos e paredes do lugar.

Os atores realizaram outras visitas na medida da continuidade de cada pesquisa, incluindo passar uma noite no convento.

Todo esse caminho culminou com um encontro dos atores com as personagens reais da história, sobreviventes de uma época: os frades Fernando, Beto, Oswaldo e Ivo. Este face a face foi um emocionante encontro de gerações e que ficou marcado para todos, criando-se uma cumplicidade essencial para que os atores sentissem-se seguros, confiantes e mais à vontade na sua preparação para interpretar personagens históricos, alguns vivos, de rara complexidade.

A repressão

O trabalho com o grupo de torturadores comandados pelo famigerado comandante Fleury deu-se de forma igualmente intensa. Os mesmos documentos de época eram lidos com outro enfoque, buscando-se uma coerência nestas personagens que por mais cruéis e incoerentes que podiam parecer, tinham dentro de si justificativas internas, seja de manutenção do emprego, por ordem ideológica, deturpação de personalidade, uso e abuso do poder, ou ainda um sentimento unilateral de justiça.

Além da pesquisa teórica foi mesmo na pratica que centramos o trabalho de preparação deste núcleo. Realizamos várias invasões com o núcleo de policiais nos ensaios dos frades, experimentando diversas abordagens com maior ou menor truculência, onde o objetivo básico era o exercício arbitrário do poder com interrogatórios, praticas de humilhação, etc. Estes exercícios funcionavam como uma improvisação dirigida, sem a necessidade de recorrerem aos diálogos do roteiro. O importante era vivenciar as situações da forma mais real possível. Os embates eram somente corporais, não havendo uso de nenhum material que pudesse machucar ou comprometer a integridade física do elenco.

Os limites eram estabelecidos pouco a pouco a partir do jogo dos atores. Os frades pelo principio da não violência não podiam reagir, os policiais ditavam todas as regras das situações. O jogo era claramente de ação e reação. Foi sendo criado na pratica um pacto de confiança entre os atores, fundamental para as seqüências posteriores de tortura explicita. Num destes exercícios tivemos a real dimensão de quem eram os nossos heróis quando acuados pelos policiais e sem reações externas diante de tanta agressividade, os atores entoaram o Pai Nosso por vários minutos, trazendo uma situação de absoluto desconforto e desorientação para os agressores que não tiveram outra saída senão retirar-se.

O movimento estudantil

Além dos frades, os policiais tinham também como alvo os estudantes.

Realizamos um grande encontro nos amplos estacionamentos do prédio abandonado da antiga faculdade de farmácia.

Eram perto de cento e vinte atores entre elenco principal e elenco secundário, com a presença dos estudantes, frades e policiais.

Simulamos a histórica reunião estudantil realizada em um sítio em Ibiúna-SP.

Esta situação não está entre as seqüências que iriam ser filmadas, mas era fundamental para encontrarmos todas as motivações para as personagens. A presença do elenco secundário, tanto do movimento estudantil, bem como da tropa de choque, era essencial para trazermos a realidade do acontecimento, num exercício de corpo a corpo que poderia reatualizar a opressão e a resistência. Ao mesmo tempo em que os atores principais iam construindo suas personagens, os atores das personagens secundarias puderam vivenciar através deste exercício coletivo sensações que os ajudariam muito a enfrentar mais tarde, muitos deles pela primeira vez, um set de filmagem. Este ensaio durou um dia inteiro, dividido em várias etapas. Num primeiro momento os estudantes de forma mais ou menos organizada iam trazendo a tona as palavras de ordem, os hinos de resistência, e todo um sentimento que me parecia fundamental estabelecer.

Cerca de 40 policiais iam testando suas estratégias de invasão ao local, sendo muito exigidos, pois na pratica mesmo levando-se em conta que eles estariam fortemente armados, não era fácil controlar toda aquela multidão que emocionada, parecia multiplicar-se em olhares e posturas desafiadoras. Ao final, chegamos nos interrogatórios, estes sim ligados diretamente a estrutura narrativa do roteiro.

A tortura

Tínhamos um grande desafio projetado desde o inicio que era o de conseguirmos o máximo de realidade nas seqüências de tortura. Solicitei a presença de um especialista em lutas. Javier Lambert incorporou-se ao trabalho, após realizar pesquisa sobre instrumentos de tortura utilizados na época. Foram construídas replicas e os nossos atores tiveram a oportunidade de experiênciar todo o constrangimento e desumanidade a que eram submetidos os presos políticos. Javier também trabalhou um amplo repertorio de golpes com as mãos, os pés e com os mais variados objetos e as respectivas reações. Todo este trabalho técnico seria complementado com o trabalho interno dos atores na relação com suas personagens como por exemplo: por quanto tempo os frades resistiriam, a que preço, e todos os desdobramentos no corpo e na mente após cada seção de tortura. De um outro lado, tínhamos os torturadores que por conta de obterem a qualquer custo as informações entregavam-se a qualquer atitude menos ou mais pervertida que pudesse fazê-los cumprir a missão. Todo este trabalho foi muito cuidadoso e delicado. Ao final dos ensaios buscava-se sempre uma confraternização e aliviamento das tensões, fazendo prevalecer o empenho profissional de cada um dos participantes.

Mariguella

Além do espaço base, onde os ensaios aconteciam, utilizamos também ruas, praças e locais que pudessem propiciar estímulos reais aos atores. Toda a clandestinidade do grupo de Mariguella e também o seu contato com os frades dominicanos, veio a tona por exemplo num exercício onde o grupo simulava um encontro nas ruas da cidade. Anonimamente partiram de vários pontos e encontraram-se numa praça tentando não despertar a atenção de ninguém. Este tipo de proposta trouxe uma unidade, um sentido de urgência e uma solidariedade que seriam essenciais para o desenvolvimento daquele núcleo. Além dos objetivos dramáticos, a rua como local de trabalho também funciona como excelente exercício para o naturalismo, pois implica em uma reação dos atores frente ao acaso e as situações do cotidiano, que permite uma mudança no modo de agir, falar e expressar os sentimentos, culminando em interpretações mais sutis e espontâneas.

Em outro exemplo de trabalho deste núcleo, fizemos um ensaio também no estacionamento do prédio desativado da faculdade de farmácia, onde recriamos a situação da emboscada e morte de Mariguella. Estávamos com os carros que seriam usados nas filmagens, dispostos de uma forma a simular uma rua e realizamos um exercício dramático cujo objetivo não era técnico, que mais tarde viria a ser feito com o uso de armas apropriadas e efeitos especiais. Nesta tarde/noite o importante era trazer o elenco o mais próximo possível da situação real. O trabalho foi tão intenso que minutos após o término, alguns policiais que estavam de ronda nas imediações, foram informar-se do que estava acontecendo, avisados pela vizinhança. Após amistosas explicações, o elenco tomou aquilo como um grande elogio ao grau de realidade que a improvisação tinha alcançado.

A Prisão do Dops

O núcleo dramático composto pelos frades pós tortura, presos políticos, estudantes, trabalhadores e intelectuais também teve uma atenção especial. Realizamos um encontro nas dependências internas da antiga faculdade de farmácia que já estavam cedidas para a produção. A utilização de um lugar abandonado, sujo, com entulhos a mostra, paredes semi-demolidas foi proposital, trazendo um clima desolado e decadente.

Novamente o exercício durou um dia inteiro e começou com o grupo de policiais distribuindo os presos em vários andares e salas. Além de interrogatórios e a arbitrariedade de praxe por parte dos policiais, o foco dramático era no solitário exercício de cada ator ter que permanecer por muitas horas naquele local sem ter uma janela ou uma saída. Criou-se um cotidiano de sobrevivência com conversas, isolamento, discussões, aulas de ioga, missas de resistência. O foco também era a relação dos presos políticos com os frades, com desconfianças e reticências.

A tragédia de Tito

Além do trabalho coletivo com os frades, criando-se uma unidade que foi fundamental para o tom das interpretações, e também de trabalhos individualizados, como por exemplo os limites de cada um diante da tortura, impetuosidades e discreta diferença nas atitudes diante dos fatos, foi feito uma grande investigação com a trajetória singular da personagem Tito. Do jovem idealista das comunidades de base nordestinas até os dilacerantes conflitos de suas alma pouco tempo antes de sua morte. Com exercícios de respiração, movimento e ritmo, traçou-se um fio condutor baseado na intuição e subjetividade que revelaram estados variados de emoção numa proposta de concentração e verticalidade fundamentais para a personagem que viveria a perda dos ideais, da fé, num périplo de ensimesmamento, solidão e descontrole. Conflitos que seriam os motes que o levariam ao trágico desfecho na França.

Um capítulo a parte, foi a relação de Tito com o Fleury, com os dois atores se dispondo a um exercício de enfrentamento muito forte, até ao ponto de Tito nunca mais esquecer o olhar de seu oponente.

Um outro detalhe foi que o ator deslocou-se até o Ceará para visitar pessoalmente os familiares de Tito, fato marcante para ampliar o imaginário da personagem.

Aliás, é importante destacar que quase todos os atores, mesmo aqueles com personagens secundarias, fizeram movimentos semelhantes, indo em busca de informações, documentos, fotografias e referencias por sua conta, chegando também a encontrar-se com a família e amigos das personagens.

Um legitimo encontro de gerações, onde uma experiência artística e ficcional transitava de tal forma ancorada na realidade que desafiou os atores a um exercício de construção das personagens a partir de uma relação da sua própria pessoa com o país, a história e as pessoas reais investigadas.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Outro destaque que faço é so bre o post do meu amigo Déi. E um belo texto sobre as dificuldades de locomoção para portadores de deficiência física nos meios de transporte de Brasília.
O Endereço:
http://www.rockinceilandia.blogspot.com/
O jornalista Luiz Nassif está escrevendo uma série de artigos sobre a revista veja (no dimunuitivo mesmo). É bom para conhecermos um pouco sobre o que motiva a nossa imprensa.
O endereço do blog do Nassif está nos destaques ao lado, mas replico aqui:
http://www.projetobr.com.br/web/blog/