Anonymous por nada?

Os caras chamaram  o Hans Donner para fazer a abertura deles? Só faltou o "plim-plim".

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Diário do Centro do Mundo


Postado em 16 Feb 2014


“Saudações, mundo. Nós somos Anonymous”
Qualquer cidadão que começasse uma conversa com “saudações, mundo” precisaria de tratamento psiquiátrico. No caso dos Anonymous, é apenas um pouco pior porque, como eles mesmos dizem, não se trata de uma pessoa, mas de uma ideia.

O grupo lançou um novo vídeo explicando as manifestações do ano passado. “Em 2013, o Brasil viveu um momento histórico, em que centenas de milhares de pessoas foram às ruas para reivindicar seus direitos e se posicionar contra situações injustas”, conta o narrador, em inglês, em sua irritante voz de Google Tradutor.
“Em tese, tudo isso é muito bom, não é? Entretanto, temos observado que muitas dessas pessoas que tomaram as ruas não sabiam exatamente pelo que estavam lutando”.

E então você imagina que virá um insight sobre os protestos — ou, no mínimo, sobre as causas que os Anonymous apoiam. Não. O que se segue é uma espécie de confissão blasé de que eles não têm ideia do que estão fazendo nas ruas. Claro que tudo de uma maneira grandiloqüente e pseudomisteriosa.

Para uma coisa, pelo menos, o vídeo serve: esquecer a conversa fiada de que eles se inspiram no ideário de Guy Fawkes, o soldado inglês que tentou explodir o Parlamento durante a “Conspiração da Pólvora” no século XVII.

“Ao contrário do que muita gente acredita, a ideia Anonymous não é baseada na história de ‘V’, nem na ideologia de Guy Fawkes. É verdade que, em alguns aspectos, a ideia Anonymous pode assemelhar-se com alguns diálogos presentes no filme, mas não é assistindo ao filme ou lendo as HQ’s que você entenderá a consistência do ideal Anonymous.

Vocês podem perguntar: ‘por que usam uma máscara?’ Para responder precisamos voltar alguns anos no tempo: apresentamos aqui, para quem ainda não conhece, o Projeto Chanology. Era início do ano de 2008, quando vazou na internet um vídeo de Tom Cruise fazendo declarações sobre a Igreja da Cientologia.

O vídeo se espalhou rapidamente pela rede e a igreja foi igualmente rápida ao censurar o vídeo alegando violar direitos autorais. Bem, é melhor ser cauteloso antes de desrespeitar a liberdade na internet: Anonymous orquestrou uma série de ataques contra sites da Cientologia e trotes aos centros da igreja.

Foi nesse contexto que Anonymous se organizou protestos nas ruas, pela primeira vez! Era uma experiência nova e o alvo tinha um extenso histórico de censura e opressão aqueles que se mostravam publicamente contrários as suas crenças. E foi aí que surgiu a ideia dos manifestantes usarem uma máscara e a escolhida foi a máscara de Guy Fawkes/V. Porque ela representa muito bem a questão de ser Anonymous na internet: todos são iguais, todos podem ser qualquer um, e até mesmo somente um, e todos representam a mesma coisa.”

A culpa é de Tom Cruise, portanto. Não há diferença entre o messianismo dos Anonymous e o das, digamos, testemunhas de Jeová (exceto que os primeiros sabem mexer no computador).

Eles querem salvar você, embora você não queira ser salvo. Ademais, ser salvo para quê? O que eles oferecem como proposta?

“Nós somos os 99% da população que se levanta contra a tirania de 1% e estamos nos organizando mundialmente com este objetivo”. É muito pouco para tanto barulho. Eles não são de esquerda e nem de direita. Eles não são anarquistas ou fascistas.

Embora critiquem a “mídia”, as páginas dos Anonymous no Brasil todas reproduzem as mesmas matérias de sempre com os mesmos escândalos de corrupção de sempre. Tudo envelopado naquela auto-importância e soberba.

É apenas mais uma seita. Mascarado por mascarado, o Batman do Leblon é muito mais interessante. Fica lá na dele, apoia um rolezinho, discute com um cineasta, apanha da polícia, volta para casa e vai trabalhar de protético. Ao invés de “saudações, mundo”, dá “bom dia e boa tarde”.


Sobre o AutorDiretor-adjunto do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.

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