Entendendo a questão de herança sanguínea no Oriente


‘Jus sanguinis’, fator decisivo, é ignorado no noticiário

Por Mauro Malin em 11/02/2014 na edição 785

O noticiário brasileiro sobre a crise ucraniana nos três jornais mais influentes do país passou semanas na base do fast-food costumeiro. A cada volta do parafuso, o leitor tinha o direito de se perguntar se uma crise tão duradoura e radical seria fruto apenas do divórcio de interesses e opiniões entre adeptos da adesão à União Europeia e partidários da permanência na esfera de influência – melhor seria dizer controle – da Rússia.
As reportagens e análises se enriqueceram desde o final de janeiro, quando a Folha de S.Paulo, por exemplo, publicou editorial exemplarmente simplista (“Ucrânia dividida“, 30/1). Que o noticiário das agências internacionais seja consolidado em matérias com espaço restrito, é normal em jornais. Mas que se reproduza esse padrão num editorial, para cuja redação se dispõe de um pouco mais de tempo e se pode contar com informações e conhecimentos adicionais, não é normal nem compreensível. Ao contrário, ilustra bem a constatação de que o noticiário (seja nacional ou internacional, econômico ou policial, ou de qualquer outra natureza), apesar dos esforços de editores, repórteres e redatores, é pedestre, quando não indigente: porque é antes de tudo nele que se baseiam os editorialistas.

Ilustração de José Américo Gobbo (Clique na imagem para ampliar)

Solo ou sangue

O professor da USP Angelo Segrillo, autor de vários livros sobre os países da extinta União Soviética, aponta, em entrevista por e-mail ao Observatório da Imprensa, um ingrediente decisivo da crise ucraniana ignorado no noticiário:

“Fundamental para entender por que a Ucrânia está tão dividida é uma coisa com a qual pouca gente está familiarizada aqui no Brasil. Ao contrário de Brasil (EUA, Europa ocidental em geral etc.), onde a nacionalidade é determinada pelo princípio do jus soli (‘direito do solo’, ou seja, nasceu em solo brasileiro é de nacionalidade brasileira), nos países eslavos, como a Ucrânia e Rússia, a nacionalidade de uma pessoa nada tem a ver com o lugar onde nasce. É determinada pelo jus sanguinis (‘direito do sangue’, ou seja, a pessoa tem a nacionalidade do pai ou da mãe). Isso eterniza as diferenças que chamamos aqui de ‘étnicas’ e que lá eles chamam de ‘nacionais’.
“Na Rússia, por exemplo, há mais de cem nacionalidades (na Ucrânia, dezenas). Ou seja, quem é filho de pais russos na Ucrânia vai continuar sendo russo (de nacionalidade) para a eternidade, apesar de ser cidadão ucraniano como todos os outros. Os russos na Ucrânia falam russo, a maioria vai a escolas onde as aulas são dadas em russo, etc. Há um grande hiato entre os cidadãos ucranianos de nacionalidade ucraniana (77% da população) e os cidadãos ucranianos de nacionalidade russa (17% da população), fora o grande número de nacionais poloneses, judeus, etc.
“Esta diferença entre jus sanguinis e jus soli ajuda a explicar a eternização da diferença entre nacionalidades na Ucrânia e por que ela está tão dividida entre um lado leste, povoado por ‘russos’ (de nacionalidade), ligados historicamente à Rússia, e um lado oeste diversificado, com maioria de nacionais ucranianos que têm sentimentos ambivalentes em relação ao ‘Grande Irmão’ vizinho: alguns lembram que russos, ucranianos e bielorrussos eram um povo só na época do Estado kievano dos séculos 9 ao 12 e outros querem se afastar do abraço hegemônico do Grande Irmão. A situação é realmente tensa quando se coloca o projeto de mudar completamente os tradicionais laços históricos com a Rússia para embarcar no projeto de associação com a União Europeia.”

Visão “ocidental”

Segrillo concorda com o diagnóstico de que as matérias carecem de perspectiva histórica, operam brutal simplificação e ignoram o sentimento russo atávico de vulnerabilidade de Moscou, embora sejam razoavelmente conhecidos dos leitores os episódios históricos de Napoleão e Hitler na Rússia. Seu comentário:

“Eu adicionaria que isso é reflexo do sistema do grande jornalismo no Brasil, que se baseia nas agências de notícia norte-americanas e ocidentais (Reuters, Associated Press, CNN etc.). Há este problema de nascença, já que reproduzimos aqui o pensamento destas agências ocidentais. Será difícil ter um ponto de vista simpático a regiões não-ocidentais em episódios envolvendo disputas com o Ocidente quando nossas fontes são exatamente estas fontes ocidentais. Raramente algum grande órgão de imprensa brasileira, quando reporta sobre a Rússia, por exemplo, utiliza agências de notícias russas (Itar-Tass, RIA-Novosti), que poderiam dar um outro ponto de vista (independentemente de quem está ‘certo’ ou ‘errado’).”

O mencionado editorial da Folha cita declaração do primeiro presidente pós-soviético da Ucrânia, Leonid Kravchuk, segundo a qual há risco de guerra civil, como se tal risco pudesse decorrer de um conflito apenas entre as intenções de se aproximar da Europa e permanecer na esfera de influência russa. Sobre essa avaliação simplista, escreveu:

“A questão da UE agora é apenas a ponta do iceberg, a última gota que pode derramar o balde. Como eu falei na introdução sobre o jus sanguinis, há tensões estruturais mais antigas que têm que ser resolvidas, senão a situação vai se repetir no futuro, mesmo que esta crise seja resolvida agora.”

Nacionalismo plural

Segrillo discorda, porém, de que seja inconcebível nacionalistas ucranianos quererem “entrar na Europa”, porque desejariam apenas fazer qualquer aliança que lhes permitisse escapar da influência russa:

“Aqui eu sou mais cauteloso. Os nacionalistas ucranianos são um grupo muito heterogêneo. Entre eles há gente que quer entrar para a UE, tem gente que não quer entrar para a UE (exatamente para o país não perder ‘soberania’ ingressando numa organização maior, que pode controlar certos aspectos de sua vida), há nacionalistas ucranianos que odeiam a Rússia e russos, outros que têm uma visão menos radical dos russos e da possibilidade de relacionamento com eles, etc. Assim, é difícil fazer generalizações amplas sobre os nacionalistas ucranianos. É preciso examinar os diferentes segmentos abrigados nessa denominação.”

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