Lição aos “blocs”: a dor sem ódio da mulher do cinegrafista “que está indo embora”

10 de fevereiro de 2014 | 12:35 Autor: Fernando Brito


Não gosto, normalmente, de publicar manifestações de dor aguda, como as que todos estamos sujeitos a sentir em dramas pessoais, mas vou abrir uma exceção.
Exceção mesmo, porque já vi, em minha carreira profissional, muito colega forçando as emoções de pessoas sofridas, em busca de uma lágrima ou um destempero.

Coisa do “jornalismo de mercado”, da comunicação que serve apenas para amealhar receita publicitária.

Faço, porque acho que esta exceção pode servir para todos os que tem sido levados por uma “simpatia” pueril pelos atos de brutalidade, apenas porque somos todos vindos das ruas, dos protestos e da insubmissão.

Nós fomos e iremos sempre às ruas para defender as liberdades, a dignidade do ser humano e a independência de nosso país.

Mas jamais seremos “armadores de conflitos” e provocadores.

Por isso, mais do que como jornalista, companheiro de profissão de Silviano Andrade, o cinegrafista da Band que está à morte depois de ter sido atingido por um rojão de black blocs. É como ser humano, filho e pai, que creio ser meu dever publicar o que disse Arlita, sua mulher, hoje, no UOL.

Até porque Arlita, mesmo na agonia da perda iminente, não pratica o ódio insano e brutal que outros, inclusive profissionais de televisão, não se envergonha em instigar e promover, atrás de alguns pontos de audiência.

O depoimento de Arlita

“Perdoar? Meu marido está indo embora, eles destruíram uma família. Uma família que era unida, muito unida mesmo”,

”Os médicos disseram que o estado dele é grave, disseram de manhã que teriam desligado os aparelhos porque estavam somente aguardando ou milagre ou a morte cerebral.”

“Quando entrei [no CTI], senti que ele não estava nem mais lá. Ele não estava lá. Eu fiquei pensando isso aí eu tenho que botar para fora, tenho que mostrar que ele não pode estar indo embora em vão”.

“Eu vi [Fábio Raposo, um dos "blocs" ] pedindo desculpa, mas eu acho que o que falta neles é o amor, o amor pelas pessoas, porque a gente não faz isso. Ele disse que foi sem intenção. Que seja, mas meu marido estava trabalhando, estava mostrando uma manifestação”, 

“Eu acho que estes rapazes que fizeram isso, que meu marido sofreu, eles não tiveram, talvez, as mães que não deram estes ensinamentos que dei para os meus filhos. Como é que a gente vai ter paz no mundo se a gente não ensina para os filhos da gente? Então, isso é uma coisa que me deixou muito triste porque ele não merecia, é uma pessoa muito boa”. “Ele procurava sempre ajudar todos.”

Para os depredadores das ruas e para os carniceiros da mídia, Arlita deveria ser uma dolorida lição.

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