Pizzolato e sua luta - Cadê as provas, Barbosa?

Enviado por Miguel do Rosário on 07/02/2014 – 10:10 am0 comentários

É um bocado assustador acompanhar o Globo em época de histeria mensaleira. Todos os jornalões são parecidos, mas o Globo é particularmente obsessivo. Hoje temos cinco páginas, incluindo aí a capa e manchetão, dedicadas a Henrique Pizzolato, o último “mensaleiro capturado”.

Assustador porque o Globo não trata os réus do mensalão como condenados comuns. Quando Maluf é condenado ou preso, a gente lê simplesmente: “Maluf é preso em São Paulo”. Quando é um réu do mensalão, é “mensaleiro X foi preso”.
O termo “mensaleiro” se tornou uma condenação à parte, porque parece não se referir aos crimes ou supostos crimes cometidos pelo indivíduo, e sim a algo mais profundo, essencial.

O sujeito se torna, então, a encarnação do mal em si. Não é apenas um simples foragido da polícia. Não é mais Pizzolato. É o “mensaleiro Pizzolato”. A carga emocional de demonização é terrível.

Anteontem, quando estourou a notícia da sua prisão na Itália, tínhamos uma reunião do núcleo fluminense do Barão.

O assunto Pizzolato veio à tôna, naturalmente, porque só se falava nisso em toda a parte. A Globonews agia com um frenesi impressionante. Como se Pizzolato foi a pessoa mais importante do mundo, e sua prisão fosse um fato que iria mudar a história brasileira. Bem, talvez até mude, mas não no sentido desejado pela Globo…

Alguém brincou dizendo que se um Boeing caísse em São Paulo, matando 250 pessoas, o Jornal Nacional daria apenas uma nota de 3 segundos, para se dedicar integralmente à prisão de Pizzolato.

A Globo tornou-se uma espécie de fiadora mãe do mensalão. Foi na redação do jornal, em seus estúdios da TV, que o julgamento foi efetivamente realizado. É um fenômeno contemporâneo, com algumas particularidades bem brasileiras.

Primeiro temos a judicialização da política. Em seguida, temos a midiatização da justiça. Não necessariamente nessa ordem, porque são fenômenos que se retro-alimentam.

Vamos nos ater à análise do que muda, efetivamente, com a prisão de Pizzolato. O mensalão se tornou, há tempos, um embate político à parte na opinião pública brasileira. Com a prisão dos réus, o debate entrou numa outra etapa, um terreno bem mais perigoso para ambos os lados.

O perigo, no entanto, é sempre maior para quem depende do voto do que para quem depende apenas de vender jornais.

Eu já deixei claro aqui várias vezes o que eu penso. O mensalão foi uma grande armação. Houve caixa 2 e crimes relacionados, como lavagem de dinheiro, mas não houve compra de votos no Congresso. E não porque os deputados não se deixam subornar; ao contrário, o Congresso às vezes parece um grande balcão de negócios, mas é assim em todo o mundo capitalista. A questão não é essa.

A questão é que a acusação da Procuradoria não consegue, jamais, provar a tese centralíssima do mensalão: de que o governo comprou a consciência dos deputados nesta ou naquela votação. Uma acusação deste quilate só poderia ter procedência se houvesse vídeos e áudios de uma negociação deste tipo.

Acusar levianamente é sempre uma ofensa. Acusar levianamente todo o Congresso Nacional foi, para usar a expressão do então procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra ele mesmo: foi um dos crimes mais atrevidos da história da república.

Ora, a reforma da previdência foi motivo de intensos debates públicos. A imprensa apoiava a reforma de previdência. A oposição apoiava a reforma da previdência. Não era preciso pagar nenhum “mensalão”.

A quem interessa desmoralizar totalmente o Congresso Nacional com uma acusação sem provas? Que forças lucrariam com isso? Essa é a grande pergunta para se compreender todo esse processo.

Voltando à Pizzolato, o importante é não perder o foco. Ele tem um papel essencial nessa trama, porque há documentos que provam, categoricamente, que ele não era responsável pelo fundo Visanet. Ponto. Não basta que se prove o desvio do fundo Visanet. Ele tinha que ter sido determinado por um petista, porque o objetivo de tudo seria para O PT “perpetuar-se” no poder.

A mídia, entendida aqui como o maior partido de oposição, e fiadora principal da tese do mensalão, talvez já soubesse disso há tempos. Ou pelo menos seus estrategistas mais inteligentes sabiam. Os jornalistas comuns, não. A mídia se tornou uma espécie de QG de inteligência política avançada, onde os jornalistas têm o mínimo de informação, apenas o estritamente necessário, para seguirem as diretrizes emanadas do alto com o mínimo de questionamento possível.

A tese do mensalão é tão absurda que até hoje as pessoas jamais pararam para pensar no que ela realmente significa. Às vezes eu penso que a ficha não caiu sequer na militância petista.

Segundo a Procuradoria, Pizzolato era mancomunado com José Dirceu. Dirceu mandou Pizzolato desviar dinheiro da Visanet porque queria comprar deputados.

O fato de, após mais de oito anos de investigações, não terem encontrado uma mísera conversa ou encontro comprometedor entre Pizzolato e Dirceu parece não atrapalhar os acusadores. Afinal, temos o domínio do fato, né.

Sem provas de que ele participou dos desvios da Visanet, a mídia passa fazer um carnaval sobre a fuga de Pizzolato.

Eu não considero que ele cometeu um crime ao fugir do Brasil. Foi um ato de insubordinação. Todos os “crimes” relacionados à fuga fazem parte da própria fuga.

Não quero justificar nada que alguém tenha feito de errado, tipo falsificar documentos. No entanto, se é inegável que a dignidade, a honra e a liberdade individual são coisas importantes e se um sujeito é massacrado impiedosamente pelas instituições que, em tese, deveriam lhe proteger, creio que deveríamos, no mínimo, dar um desconto para os desesperados que tentassem fugir dessa situação.

Um dos crimes mais comuns cometidos pelos militantes políticos, durante a ditadura, era justamente falsificar documentos para se manterem vivos ou fugirem do país. Meu pai mesmo ajudou a falsificar documentos para tios meus procurados pelo exército. Não vivemos uma ditadura. Mas o que fizeram com Pizzolato, acusando-lhe de um crime que, definitivamente, não cometeu, e pior que isso, muito pior que isso, inserindo-o no meio de um escândalo midiático esmagador, onde sua imagem foi mais trucidada do que se fosse um assassino, um facínora, um estuprador de crianças, foi um ato de ditadura. Um perseguido político, me desculpem, tem todo o direito de falsificar documentos, desde que não prejudique terceiros e tenha como objetivo apenas fugir da opressão.

Não se pode falar de Pizzolato como se ele tivesse permanecido, durante os últimos oito anos, em liberdade. Não estava livre. Era um homem atormentado, que quase nunca saía de seu apartamento, no Brasil, e dedicava-se, dia e noite, a lutar por sua inocência. Não era o comportamento de um homem culpado. E só fugiu do país depois que foi condenado e não via mais chances para rediscutir o seu caso. Se havia feito algum preparativo anterior para sua fuga, providenciando documentos, vendendo patrimônio, não se pode culpar ninguém por não ser idiota.

Um dia teremos que discutir melhor essa justiça “extra” da mídia. Em tempo de redes sociais, a condenação midiática ganhou uma força desproporcional. Juízes e imprensa têm de ser mais responsáveis do que nunca, porque os danos à dignidade causados por uma acusação falsa são irreparáveis.

Quando, além da dignidade pessoal, os danos se estendem à todo um grupo político, aí vemos a infâmia convertida em golpe.


- See more at: http://www.ocafezinho.com/2014/02/07/pizzolato-e-sua-luta/#more-17101

Comentários