A leitura contra o golpe na Tailândia

Blog do Nassif:



seg, 02/06/2014 - 22:58

do blog de Stanilaw Calandreli



Todd Pitman, The Associated Press, Bangkok | World | Sun, June 01 2014, 10:14 AM

Na Tailândia, o simples ato de ler em público é considerado um ato de resistência pelo governo golpista.

Na noite de sábado (31/05/14), em Banguecoque, dez dias após o exército tomar o poder em um golpe de Estado, cerca de doze pessoas se reuniram no meio de uma movimentada passarela que interliga vários dos mais luxuosos shopping centers da capital.
Enquanto os pedestres passavam apressadamente, os manifestantes sentaram-se e começaram a ler o livro de George Orwell "1984" - um romance distópico que descreve a vida em um estado vigilante e totalitário.

Em um país onde o exército prometeu reprimir os manifestantes que pedem eleições e um retorno ao governo civil, podendo ser detido simplesmente por carregar um cartaz contendo as palavras "paz, por favor" esta pequena reunião foi um ato de rebeldia - uma manifestação silenciosa contra o golpe de 22 de maio e a repressão que o acompanha.

"O povo está indignado com o golpe, mas não pode se expressar", disse uma ativista de direitos humanos que pediu para ser identificado apenas por seu apelido, Mook, com medo de ser detida.

"Então, nós procuramos uma maneira alternativa para resistir, uma forma que não seja de confronto", disse ela. "E uma dessas formas é a leitura."

Esse desafio, se é que pode ser chamado assim, caracteriza-se pelos títulos que escolheram. Entre eles: "Insurreição Sem Armas", ''As Políticas do Paternalismo Despótico" e '' O Poder dos Meios não Violentos".

A junta governamental proibiu reuniões políticas de cinco ou mais pessoas. Mas, não está claro, qual lei tais pequenos protestos estariam violando.

O golpe, o segundo em oito anos na Tailândia, depôs um governo eleito que vinha, há meses, afirmando que a frágil democracia do país estava sob o ataque de manifestantes, dos tribunais e, finalmente, do exército.

O líder da junta, o general Prayuth Chan- ocha , alegou que os militares tiveram que intervir para restaurar a ordem, depois de seis meses de debilitantes protestos que paralisaram o antigo governo e desencadearam a violência que matou 28 pessoas e feriu mais de 800.

Desde que assumiu, o militar deixou claro que não vai tolerar a dissidência, e lançou uma forte campanha para silenciar os críticos e censurar a mídia. A junta alertou todos os cidadãos para não agirem de maneira que possa incitar conflito, e a lista de alvos é enorme.

Pelo menos 14 redes de TV partidárias foram fechadas, juntamente com cerca de 3.000 estações de rádio comunitárias não licenciadas. Os canais de TV internacionais independentes, como CNN (Chamar a CNN de "independente" foi uma piada? - nota do Forte Cultural) e BBC foram bloqueados junto com mais de 300 sites da Web, incluindo o braço tailandês do Human Rights Watch, baseado em Nova Iorque. Jornalistas e acadêmicos foram convocados e alertados pelo exército. Muitos ativistas fugiram.

A repentina interrupção do acesso ao Facebook na quarta-feira alimentou especulações de que os novos governantes do país estavam testando seu poder de censura; a junta, porém, informou que foi apenas um problema técnico.

Kasama Na Nagara, que trabalha no setor financeiro, disse que cerca de 20 pessoas participaram das leituras dos livros. Sábado foi o terceiro dia que o grupo organizou tais protestos. Eles tiveram o cuidado de evitar encontro com os soldados.

Na sexta-feira, o grupo pretendia se reunir no mesmo lugar onde se reunira no dia anterior. Mas, o aparecimento de soldados fez com que cancelassem.

As organizações de direitos humanos estão profundamente preocupadas com a dimensão que a repressão possa chegar.

Algumas pessoas começaram a usar apps de bate-papo criptografados em seus smartphones, com medo de serem monitorados. E pelo menos uma grande livraria em Banguecoque, a Kinokuniya, retirou de suas prateleiras os livros com títulos políticos que poderiam ser considerados controversos.

Até agora, o livro "1984", onde autoridades empregam o estilo "Big Brother" para monitorar os lares com câmeras que mostram os detalhes íntimos das pessoas, não está entre eles.

"Mas, nós temos Big Brother nos assistindo agora", disse Kasama. "Tornou-se muito arriscado falar. Isto é muito triste. No momento, é mais seguro permanecer em silêncio na Tailândia".

No domingo, milhares de soldados ocuparam vários locais por toda a Banguecoque para impedir que grupos isolados fizessem protestos anti-golpe, aumentando os temores de uma possível violência por parte dos soldados na repressão. As autoridades fecharam vários acessos elevados às estações de trem, numa tentativa de impedir os agrupamentos.

Até agora, os outros tipos de protestos anti-golpe foram relativamente poucos. No máximo 1.000 pessoas marcharam pelas ruas de Bangkok e enfrentaram as tropas várias vezes na semana passada, porém não houve feridos.

Os manifestantes carregavam cartazes e baners feitos à mão com mensagens como: "Sem Ditadura", "Pró-Democracia" e "Anti- Golpe de Estado". Alguns apareceram com máscaras de proeminentes figuras políticas para esconderem seus rostos, com fita preta tapando a boca para protestarem contra o aumento da repressão.

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