Fórum: EUA - Por que as grandes emissoras não associam terrorismo e extrema direita?


A CNN não quer chamar uma ameaça social pelo seu nome verdadeiro

Original em Alternet, tradução por Ítalo Piva

Depois do tiroteio fatal em Las Vegas, que deixou dois policiais, um inocente, e os dois atiradores mortos, se pode esperar o mesmo debate que sempre sucede esse tipo de massacre – saúde mental, acesso às armas, os motivos por trás do crime etc. Porém, existe outro: a covardia intelectual da gigante da TV a cabo CNN, em respeito ao terrorismo da extrema-direita.
Os fatos e o contexto da carnificina de domingo passado (08/06) são bem conhecidos e já discutidos por uma multidão de meios de comunicação, tanto na internet, quanto fora.

Um casal, Jared e Amanda Miller, entrou numa pizzaria e gritou: “Isso é uma revolução”. Depois, os dois atiraram contra os policiais Alyn Beck e Igor Soldo enquanto estes almoçavam. Em seguida, o par correu para uma loja do supermercado Wal-Mart, onde matou um consumidor inocente antes de se esconder no fundo da loja, onde Miller deu um tiro matou seu companheiro com um tiro antes de se suicidar.

O que também se sabe é que os suspeitos roubaram as armas e munição dos policiais, antes de cobrirem o corpo deles com a bandeira de Gadsden, da Era Revolucionária, que mostra uma cascavel enrolada em cima das palavras “Não Pise em Mim” – bandeira essa que foi informalmente adotada pelo movimento Tea Party do partido republicano.

Quando os Millers saíram de casa, partindo para seu ataque covarde, deixaram uma mensagem alarmante para uma das vizinhas, Kelly Fielder. “Temos que fazer nosso dever”, disse Jered, acrescentando que ele e sua parceira estavam indo para um “submundo”.

Fielder disse à rede NBC que já tinha escutado Jered Miller fazer pronunciamentos antigoverno no passado – incluindo um desejo de derrubar a administração Obama e matar soldados da polícia –, porém, que não tinha se preocupado com as declarações.

Jered e Miller (Fotos: Las Vegas Metropolitan Police Department)

Nas primeiras 36 horas após o incidente, a CNN usou os seguintes termos e palavras para descrever o tiroteio: “extremismo, “grupos domésticos extremistas”, “grupos radicais”, grupos e indivíduos antigoverno”, porém em nenhuma instância o termo “de direita” ou o Tea Party foi mencionado.

Mesmo assim, a covardia da CNN não impediu que a direita entrasse no modo defensivo, com o colunista conservador Horace Cooper afirmando, no mesmo dia das mortes, que a violência da extrema-direita é “total e completamente fabricada”, sendo “uma tentativa de marginalizar a oposição da administração Obama”.

Com o recente assassinato de um policial no aeroporto de Los Angeles, a chacina no centro comunitário judaico em Kansas City, e as mortes no templo Sikh em Wisconsin, o terrorismo de extrema-direita agora é a norma, e é bem provável que esse tipo de violência trágica se torne mais prevalente com a radicalização das políticas de minoria branca, que são contrárias aos fluxos demográficos. Em outras palavras, essas “milícias fortemente armadas”, tão amorosamente acolhidas por todo mundo desde Sarah Palin a Rand Paul, sentirão que sua causa se tornou irreversivelmente desesperada.

Aqui está um fato interessante: no que se diz respeito ao terrorismo doméstico, você muito mais provavelmente morrerá nas mãos de um norte-americano de extrema-direita do que um norte-americano muçulmano. Mesmo assim, o termo “terrorista” continua reservado exclusivamente para atos de violência política cometidos por muçulmanos.


Violência cometida por grupos ou indivíduos de extrema-direta, que têm o racismo como um componente central de sua ideologia, é de uma magnitude parecida com a jihadi. Nos anos de 1990 à 2010, houveram 145 atos de violência política atribuídos à extrema-direita norte-americana, resultando em 348 mortes. Em comparação, apenas 20 norte-americanos foram mortos por violência de cidadãos muçulmanos.

“Ambas as categorias de violência representam uma ameaça aos valores democráticos das pessoas. Enquanto uma é utilizada para mudar a composição étnica de países ocidentais, ou defender a supremacia racial, a outra é usada para intimidar os governos ocidentais a mudarem políticas externas. Contudo, se preocupar com uma mais do que a outra sugere que o governo e jornalistas da mídia popular consideram políticas externas mais importantes do que os direitos de minorias”, diz Arun Kundani, professor daNew York University e autor de “Os muçulmanos estão chegando: Islamofobia, Extremismo e a Guerra Contra o Terror”.
A insígnia da bandeira de Gadsden, utilizada
pelos Millers para cobrir os corpos de suas vítimas
(Foto: Reprodução)
Já passaram mais de 13 anos desde o último ataque bem sucedido da Al-Qaeda e seus associados nos EUA. Peter Bergen, perito em segurança nacional e terrorismo global, quetiona: “Dado isto, fica mais difícil explicar, em termos de segurança nacional norte-americana, porque terroristas domésticos de extrema-direita, recebem substancialmente menos atenção do que jihadisdomésticos”.

O Southern Poverty Law Center (SPLC) calcula que existam 939 grupos de ódio de extrema-direita por todo país, incluindo neonazis, membros do klan, nacionalistas brancos, neoconfederados, skinheads racistas, vigilantes de fronteiras, entre outros.

“Desde o ano 2000, o número desses grupos aumentou 56%. Esse aumento foi causado pela raiva e medo sobre a economia nacional deficiente, um fluxo de imigrantes não brancos, e diminuição da maioria branca, simbolizada com a eleição do primeiro presidente negro. A quantidade de grupos patriotas, incluindo milícias armadas, disparou depois da eleição de Obama em 2008 – crescendo 813%, de 149 grupos em 2008, para um auge de 1.360 em 2012. O número decaiu para 1.096 em 2013”, estima o SPLC.

Terrorismo é uma demonstração de fraqueza. Terrorismo é uma tática usada por um combatente bem mais fraco. Ele representa uma dinâmica de poder desigual. Com isso em mente, é uma perspectiva terrível pensar na conclusão natural dessa tendência violenta, dado o circuito fechado da mídia de direita, e o desespero que seguirá possíveis futuras derrotas políticas à nível presidencial.

EUA, te apresento os Millers.

(Crédito da foto de capa: Wikimedia Commons)

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