Ódio de classe, racismo, machismo, violência e tudo que não presta


No início do ano, tivemos o caso do médico negro cubano Juan Delgado, que foi hostilizado por jovens médicas brancas no aeroporto de Fortaleza, fato que ficou conhecido nacional e internacionalmente pela foto de Jarbas Oliveira, da Folhapress.
Marco Weissheimer

“A melhor coisa do jogo ontem foi o grito ‘Ei, Dilma, vai tomar no c..’”. Ouvi a frase no início da manhã desta sexta-feira saindo da boca de um jovem branco de classe média, com formação universitária. A frase foi acompanhada de um largo sorriso de satisfação e uma pitada de ódio no olhar. O tal de sentimento de classe parece existir mesmo. O ódio e a grosseria expressa por aqueles que agrediram verbalmente a presidenta da República sugere que, se tivessem a oportunidade, partiriam para a agressão física com socos e pontapés. Alguém duvida? Dirigido contra qualquer pessoa já seria grosseiro. Lançado contra uma mulher que é a autoridade máxima do país supera o terreno da grosseria e ingressa no universo da violência mesmo.
Machismo, violência, racismo: parece haver um setor importante da chamada classe média que vem cultivando com afinco essas práticas. O lateral esquerdo da seleção brasileira também foi vítima desse ódio. “Tinha que ser preto”, escreveram usuários no Twitter, logo após Marcelo fazer um gol contra. Mais uma manifestação de racismo que se soma a tantas outras que já fazem parte do cotidiano nacional. O somatório do ódio de classe com o ódio racial, machismo e disposição para a violência formam um quadro que não pode mais ser escondido ou apontado como manifestações isoladas. Ele se manifesta desde a partir de manifestações de contrariedade com a presença de pobres em aeroportos e, pior, dentro de aviões, até comportamentos explícitos de violência como os dirigidos contra Dilma e Marcelo.

Dizer que a melhor coisa da abertura da Copa foi mandar a presidenta da República é a cereja deste bolo indigesto. A melhor coisa da abertura da Copa não teria sido a apresentação do exoesqueleto, do projeto Andar de Novo, encabeçado pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis, um grande passo da ciência brasileira e uma esperança para melhorar a qualidade de vida de paraplégicos em todo o mundo? Apresentação, aliás, que foi praticamente escondida pela televisão brasileira. Não, para alguns, a melhor coisa foi mandar uma mulher de 67 anos tomar no c…

Esse caldo de cultura é o mesmo que legitima, por exemplo, a prática da tortura, seja por omissão, seja por concordar que, dependendo do caso, é um método aceitável. Como assinala Darcy Ribeiro, em “O Povo Brasileiro”, há dois massacres que são fundadores do Brasil como nação e essas marcas de brutalidade e crueldade seguem presentes até hoje, não como uma característica biológica, mas como comportamento social reproduzido e mesmo estimulado pela impunidade.

Em 1500, os portugueses chegaram em uma terra que abrigava cerca de um milhão de índios, quase a mesma população de Portugal na época. As décadas que se seguiram a essa chegada, foram um período de muita guerra e morte. Os povos que aqui resistiram à chegada do invasor foram, progressivamente, massacrados e escravizados. Por volta do século XVI, os negros chegaram ao território brasileiro. Chegaram contra sua vontade, trazidos acorrentados da costa ocidental africana. Os negros escravos foram incorporados à força a uma cultura e a uma nascente sociedade completamente estranha a eles. A maioria foi levada para o nordeste açucareiro e para áreas de mineração no centro do país. E submetida a terríveis condições de vida, onde o espancamento, a humilhação e a morte eram companhias diárias. Assim como já havia acontecido com os índios. Sobre essa confluência de escravidões, Darcy Ribeiro diz:

“Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos”.

Recentemente, tivemos também o caso do deputado federal Luiz Carlos Heinze, do PP gaúcho que falou durante uma audiência pública que quilombolas, índios, gays e lésbicas são “tudo que não presta”. Dias atrás, Lasier Martins, candidato a senador pelo Rio Grande do Sul falou sobre como índios podem “deixar de ser índios” e se tornarem “cidadãos respeitáveis”. No início do ano, tivemos o caso do médico negro cubano Juan Delgado, que foi hostilizado por jovens médicas brancas no aeroporto de Fortaleza, fato que ficou conhecido nacional e internacionalmente pela foto de Jarbas Oliveira, da Folhapress. Os casos são diferentes, expressão diferentes níveis de preconceito e racismo, mas dialogam entre si, fazem parte do caldeirão de brutalidade mencionado por Darcy Ribeiro.

Essa gente insensível e brutal esteve representada no Itaquerão mandando a presidente tomar no c…e “xingando” Marcelo de “preto” em redes sociais. O ódio de classe, o racismo e a violência andam de mãos dadas. Essa é uma das impunidades mais graves que segue reinando no Brasil, sendo atualizada e legitimada institucionalmente a cada geração. Esse processo de legitimação começa desde o topo da cadeia jurídica, desde a Corte Suprema do país, que segue mantendo os torturadores ao abrigo da Lei da Anistia.

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