Miruna Genoino relata sua primeira visita ao pai na prisão

Confesso que não li de uma vez. Parei por algumas horas, depois da primeira parte, pois fui tomado pela emoção.

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Essa frase acima está estampada em um sacolinha de pano que acompanha meu pai em seus dias na Papuda. Nela, há uma foto de Gandhi, mas pelo que pude saber, foi o filósofo chinês Lao-Tsé quem a proferiu. Não importa. Ela é a frase ideal para acompanhá-lo nesses dias de tanta revolta, injustiça e indignação.
Dentro da sacola meu pai carrega um rolo de papel higiênico, um caderno pequeno da copa do mundo, e outro maior, daqueles bem antigos, de capa mole, pautado, onde está escrevendo seus pensamentos, suas ideias, suas anotações daquilo que está fazendo – e sentindo - na Papuda. Sentado na cadeira de plástico onde nos recebeu, ficava sempre com a sacola pendurada do lado, perto, talvez como o símbolo de sua identidade naquele mundo amorfo de pessoas brancas, de almas pesadas e de tanta sujeira e tristeza.

Não vou mentir, não vou amenizar, até porque escrevo esse texto mais para mim mesma do que qualquer outra coisa, nem sei bem quem terá a disposição e o ânimo de ler o que vou registrar aqui. Eu não vou mandar agora esse texto para meu pai; ele lerá, quando quiser e puder, no dia em que estiver fora deste local que eu descreverei...

A minha primeira visita ao presídio da Papuda, localizado em Brasília, começou bem cedo, quando saí de São Paulo para vir para cá, e continuou ontem cedo quando nos levantamos e vestimos todos, eu, minha mãe, meu irmão e meu cunhado, roupas brancas dos pés à cabeça. Cueca branca, calcinha branca, sutiã branco, sem bojo, calça branca, camiseta branca, chinelo branco. Tudo branco. Exatamente igual à roupa que os presos precisam usar: branco. Desde que soube que isso era assim eu pensei e busquei todo tipo de explicação para essa obrigatoriedade imposta aos familiares e apesar de já ter ouvido todo tipo de ideias, só penso em uma coisa: marcar as famílias. Marcar e humilhar as famílias com a mesma vestimenta que qualquer preso do CIR-Papuda precisa usar para cumprir sua pena, mostrar, a quem quer que seja e saiba, que quem veste branco tem um familiar preso, com toda a carga emocional que isso significa. Mulheres, homens, velhos, crianças, bebês, todos de branco.

Para a minha família, e acredito que para outras que estão lá também, essa roupa é a marca mais concreta possível de toda a injustiça que estamos vivendo desde 2005. De toda a humilhação, covardia, manipulação, maldade, que vivemos há 9 anos, quase exatos 9 anos.
Quando olhei para o presídio, a primeira coisa que eu pensei foi: então tudo aquilo que meu pai fez, todos os sacrifícios, toda dedicação, todo compromisso, todo seu amor pela política, nos levaram a isso? E olhava para o lado e lá estava ela, minha mãe, minha querida e amada mãe, que também já esteve presa, que também já visitou meu pai em uma cadeia, mas quando vivíamos em uma ditadura, e não em uma democracia. Em determinado momento eu olhei para o lado e perguntei a ela: “Mamãe, como você aguenta?”. E ela me disse: “Ah, Mimi, eu não sei, não penso, só penso no Papai”. Amor, puro amor, e coragem, muita coragem.

Depois de toda fila de carros, de pessoas, de cadastro, de documento, de revista, de verificação, conseguimos entrar. Minha mãe segurava firme na minha mão, muito firme, e me falava algo que repetiu várias vezes ao longo do dia e que me ajudou muito a não me sentir uma pateta: “Eu sei o que você está sentindo, Mimi. A primeira vez é muito ruim”. Digo isso de pateta, porque era como eu me sentia, com as minhas lágrimas insuportáveis caindo, e eu no meio de um mar de gente que estava na mesma situação que eu e não soltava uma lágrima sequer. Uma. Não vi uma pessoa, mulher, velhinho, criança, chorando. Ninguém. E me sentia uma ridícula por não conseguir segurar completamente as minhas estúpidas lágrimas. Nunca tive tanta raiva da minha facilidade de chorar.

Cruzamos o portão de entrada, e de repente as grades. Grades, grades, grades, para todos os lados, uma escuridão, grades, chão sujo, grades, policiais, grades, gente no chão, grades... aquilo foi me oprimindo, eu não sabia como aguentar, mas eu tinha a mão da minha mãe me segurando. De repente um policial veio abrir o portão e falou: “Ué, chorando? Chorando por quê?” e aquilo acho que foi a coisa mais violenta que vivi em toda a minha visita.

Chorando por quê?

Naquela frase o símbolo da estranheza do funcionário, por uma manifestação humana tão verdadeira e tão emotiva como a lágrima. Naquela pergunta, a cobrança por uma postura diferente para um lugar que parece ter se acostumado ao massacre do sentimento. Naquele momento, a raiva e a vontade de gritar: Sim, estou chorando, porque estou vindo visitar meu pai, um homem de 68 anos, doente, com problema de saúde, honesto, bom, humilde, e que fez muito por você e pelo país e graças à nossa mídia nojenta e à covardia de pessoas com poder de decisão, terminou aqui. Nesse lugar. Sim, chorando, porque a indignação é o primeiro passo para não se resignar e eu nunca vou aceitar essa condenação que impuseram ao meu pai. Chorando porque ele é inocente!!!!!!!!!!!!!!”.

Mas óbvio, não falei nada. Só a minha mãe respondeu: “É a primeira vez dela aqui”. E nesse momento, senti alguém se aproximando e vi, por entre as grades, meu pai. Não sei quanto tempo demorou para o policial terminar de destrancar a grade, mas aqueles segundos entre vê-lo e abraçá-lo foram certamente os segundos mais longos de toda a minha vida... e quando por fim nos juntamos, nem sei o que aconteceu. O mundo parou.

Eu só me afundei naquele abraço, fechei meus olhos e chorei e apertei meu pai. Apertei firme, abracei e disse muitas vezes como eu o amava. Meu pai não me soltava, apenas me abraçava e beijava a minha cabeça. Eu só me imaginava fora dali, fora, longe, em outro lugar. Todos os abraços que eu dei no meu pai eu fechei os olhos, para não me ver abraçando-o ali no presídio, mas fora, em casa, nas montanhas que eu tanto desejo um dia subir com ele.

Eu parei de chorar. Sim, isso é importante. Eu chorei muito mas percebi rapidamente que precisava parar, não porque era errado chorar, mas para aproveitar o tempo, estar com meu pai, conversar, viver aquele pequeno tesouro que é estar com ele. A sua primeira providência foi me apresentar aos outros condenados que eu não conhecia... assim, depois de dar um abraço no Delúbio e no Zé Dirceu, meu pai me apresentou ao Jacinto Lamas, ao Valdemar da Costa Neto e ao Bispo Rodrigues. Todos me receberam com um sorriso e de diferentes formas me falaram: que bom que você veio.

Quem está fora e sabe que a AP470 foi uma mentira e uma das maiores aberrações jurídicas da história do nosso país deve se perguntar como foi, como é, juntar algumas dessas pessoas que foram atingidas por essa violência da injustiça, como é viver em grupo entre todos os que foram injustiçados e massacrados de tantas formas possíveis. Revolta? Sim. Indignação? Sim. Amargura? Não. Resignação? Não. Depressão? Não. Existe companheirismo, existe força, existe união, e existe resistência. Resistência para poder suportar essa vida tão difícil que caiu na vida de cada um... percebi que a maior resistência deles é a fortaleza de espírito, a capacidade de rir, de gargalhar até, das grandes e pequenas coisas, a força do homem contra a maldade... impressiona quando a gente vê em escala maior, porque eu só via até agora na presença do meu pai.

Meu pai fez de tudo para me colocar por dentro da sua vida. Me apresentou aos funcionários, me mostrou o pátio onde pode tomar sol e caminhar 1 hora por dia, me mostrou sua comida.

A você que teve paciência de ler até aqui eu digo: o meu pai está em um lugar horrível. Horrível porque é sujo, feio, tem pombos por todas as partes e vimos um rato, acho que uma ratazana, enorme, circulando por lá. O banheiro é péssimo, claro, pois para quem não sabe (e que bom que nunca precisou saber disso), não tem vaso sanitário, é apenas um buraco no chão. “Já me acostumei, Mimi”. Eu não pude ver a cela, pois ontem os companheiros do meu pai iam ser transferidos e estava uma grande movimentação de pessoas, então os policiais acharam melhor eu não ir.

A partir desta semana meu pai ficará sozinho naquele lugar. Seus companheiros foram e serão transferidos para outro presídio, onde dormirão depois de terem saído para trabalhar durante o dia. Eu tento pensar menos do que minha mente quer, sobre o fato de meu pai ficará lá agora sem ninguém, porque se eu pensar muito tenho certeza de que vou perder a minha cabeça... ele diz que está bem, que está preparado, e que “vai dar tudo certo”. Mas a verdade é que estar lá já é de uma opressão e uma indignação tão grande, para um homem inocente, imaginem sem ter colegas, companheiros, parceiros para ajudar e encarar a situação... e diante disso tudo o que mais me emocionou foi perceber a alegria que meu pai sente de que seus companheiros possam sair, possam ter seu direito de trabalhar, de vencer aqueles muros.

Bem, eu poderia escrever páginas e mais páginas de tudo que senti e vivi ontem, mas o que mais posso dizer agora, quando tento terminar meu pequeno grande relato desabafo é que algo muito difícil para mim, para além do lugar em si, foi a leitura dos sentimentos do meu pai... eu e ele temos uma ligação muito forte, muito mesmo, e eu consigo saber muito rapidamente o que ele está sentindo e pensando. E aí eu ia vendo tantos sentimentos diferentes passando e repassando por ele durante nosso tempo lá... mas o que mais me doía era quando eu percebia o sentimento de uma certa angústia por ver os filhos lá. Seu olhar ansioso quando voltei do banheiro, sua forma de me mostrar sua comida, sua maneira de contar sobre sua vida lá dentro. Eu sou mãe e consigo tentar imaginar o que é para ele estar ali e ver os filhos vendo-o ali.

O tempo de uma visita passa muito, muito rápido. Falamos sem parar, conversamos de todos os assuntos possíveis, ele passou recados, mensagens, e até recomendações de coisas a fazer... me ajudou a estabelecer a minha lista de prioridades, que foi algo que andei lhe perguntando nas minhas cartas, para saber como vencer os diferentes desafios que foram caindo na minha cabeça ultimamente, desafios para além da sua prisão.

Para terminar eu preciso dizer que eu só aguentei aquilo tudo porque eu tive muita força, muita energia positiva, muito amor de muita gente, muito pensamento positivo enviado para mim. Eu senti a presença e a força de todas essas pessoas que de formas tão importantes e marcantes me ajudaram a aguentar... e quero que saibam que meu pai está bem, dentro do possível, mas está bem. O bem que eu digo é de cabeça, de força, de emoção. De saúde está segurando como pode com o apoio incondicional do serviço médico da Papuda que faz o que pode, sabendo que não poderá resolver seus problemas de saúde totalmente, porque o seu índice de coagulação não vai se estabilizar naquelas condições, com aquela alimentação, aquela situação. Só podemos esperar, torcer e rezar, rezar muito para que seu corpo aguente o tempo que lhe resta sem nos dar nenhuma surpresa. Não podemos contar com a justiça, precisamos contar é com a fé.

"Aquele que obtém uma vitória sobre outros é forte, mas aquele que obtém uma vitória sobre si próprio é todo - Poderoso."

De novo a frase, porque ela é perfeita para encerrar esses pensamentos. Meu pai está conseguindo vencer a si próprio, seus limites, seus sentimentos, vencer ele mesmo e a vontade de desistir. Ele está firme no propósito de resistir, de superar, aguentar, para na sua saída, comer a comida que escolher, que desejar, que sonhar.

“Qual é a comida, Papai, que você deseja comer?”

“Um arroz com feijão e uma cozidão. Um cozidão de frango”.

Seus olhos nesse momento sorriram.
Esse é meu pai.

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