MST: democratização do conhecimento é mais importante que reforma agrária

(Republicando)

Sem-terra reúnem parlamentares, representantes de entidades da sociedade civil e intelectuais em evento que consolida congresso do movimento e atualiza agenda da reforma agrária

por Hylda Cavalcanti, da RBA 

publicado 14/02/2014 11:46, última modificação 14/02/2014 12:30
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

Crianças participam de ato que pede ao Ministério da Educação políticas públicas para os assentamentos

Brasília – O Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) encerra hoje (14) seu 6º congresso nacional na capital do país. Ontem, no fim do dia, reuniu políticos, representantes de outras entidades organizadas da sociedade civil e trabalhadores no Ginásio Nilson Nelson. O ato
marcou o encontro de forças partidárias e sociais que possuem, muitas vezes, pensamentos divergentes, mas carregam em comum o apoio ao movimento. E acolheu o sentido de atualização da bandeira da reforma agrária, em sintonia com a realidade econômica, social e institucional do país – 30 anos depois da criação do MST. A atenção a programas que levem a mais políticas públicas voltadas para a educação nos assentamentos, por exemplo, ganha destaque entre as reivindicações da organização.

Para o membro da direção nacional do MST, João Pedro Stédile, a reforma agrária precisará atuar de forma mais vinculada, daqui por diante, à educação no Brasil. "Não vamos admitir o fechamento de uma única escola no meio rural. Nem que para isso seja preciso repetir a marcha de ontem", afirmou. "Descobrimos que a educação, como um processo de democratização do conhecimento, é mais importante que a terra."

O dirigente acentuou, também, que o fechamento de escolas no campo, nos últimos anos, terminou se tornando um problema para os trabalhadores rurais. Por conta disso, horas antes da realização do ato, um grupo de crianças filhas de trabalhadores rurais realizou um ato pacífico em frente ao Ministério da Educação, ocasião em que "carimbaram" suas pequenas mãos nos vidros do prédio e pediram por melhores políticas do setor para os assentamentos.

"Estamos todos satisfeitos aqui, numa festa de união, troca de ideias e de reflexão. Avaliamos com companheiros de todo o país os pontos em que é preciso lutar mais para resolver nossos problemas", afirmou a coordenadora do movimento Fátima Arruda, de Alagoas.


O evento contou com a participação de várias autoridades e parlamentares, como o ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência da República, a secretária Nacional de Juventude do governo federal, Severine Macedo, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), o presidente nacional do PT, Rui Falcão, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Vinícius Coelho, religiosos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e parlamentares.

Na plateia, fizeram parte da festa perto de 16 mil trabalhadores rurais, que desde segunda-feira (10) estão em Brasília e realizaram manifestações pela, como passeatas, visitas a ministérios e realização de performances em frente à rodoviária da cidade, na área central do Plano Piloto – destas, só uma resultou em princípio de conflito, segundo os organizadores, por ação desastrosa da Polícia Militar: a passeata da quarta-feira (12) pela Esplanada dos Ministérios e Praça dos Três Poderes.

O ministro Gilberto Carvalho destacou a importância das ações do MST, lembrou da reunião realizada durante o período da manhã no Palácio do Planalto, entre representantes da coordenadoria nacional do MST e a presidenta Dilma Rousseff (da qual participaram ele e o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas) e reiterou que é objetivo do governo trabalhar para que os pleitos dos assentados sejam atendidos, bem como implantar melhorias nos assentamentos, por meio de programas governamentais como o Minha Casa, Minha Vida e o Luz para Todos. Na véspera, Carvalho havia admitido que o governo deixou a desejar em relação a ações voltadas para a reforma agrária em 2013 e afirmou há expectativa de melhorar esse desempenho neste ano.
Permanência na terra

Severine Macedo chamou a atenção para a mobilização dos jovens do movimento. “Sei que vocês já fizeram bastante, mas é preciso ter em mente que esses 30 anos do MST servem para reflexão e para que, daqui por diante, o que foi conseguido seja mantido, para que possamos garantir o direito das pessoas a terras e, também, à permanência nestas terras.”

O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, acentuou que atos como aquele honram o Brasil. Segundo ele, o MST está atuando, hoje, num momento particular da vida nacional. "Na democracia, os movimentos que têm bandeira, direção, programa e rosto, são os que têm capacidade de mudar e aprofundar a revolução democrática de nosso país e o MST é assim", ressaltou o governador, um dos mais aplaudidos. De acordo com Genro, o congresso é digno de elogios, porque certamente levará a um novo modelo de reforma agrária, focado num novo sistema de distribuição de renda e combate às desigualdades sociais e regionais no país.

O bispo Guilherme Werlang, da CNBB, enfatizou que os movimentos sociais são importantes para que o Brasil passe a ter, um dia, um limite máximo de propriedade, que ainda é concentrada nas mãos de poucos. Segundo dom Guilherme, a questão ainda é uma "utopia", que só se concretizará por lei de iniciativa popular, motivo pelo qual ele conclamou a sociedade civil a ser atuante. "O trabalho dos movimentos sociais foi e é fundamental para ajudar a combater essas desigualdades", disse.

O presidente do PT, Rui Falcão, observou que os latifúndios brasileiros não se resumem em propriedade rurais. "O monopólio dos meios de comunicação, o controle da economia pelas multinacionais, pelo capital financeiro e o poder econômico sobre o sistema político também constituem latifúndios", afirmou.

A presença de vários parlamentares acentuou o respeito suprapartidário às causas do movimento. O senador Roberto Requião (PMDB-PR), que momentos antes manifestará apoio à luta dos sem-terra na tribuna do Senado, destacou a necessidade de revoluções sem violência. "As classes dominantes tentam aterrorizar e coagir especialmente a classe média e os setores mais atrasados buscando associar revolução com luta armada, violência, anarquia e desmando", criticou.

"A reforma agrária é uma luta que deve estar sempre presente em nossa atuação, de forma que possamos dar as condições para que os homens e mulheres do campo possam produzir e viver em suas terras com dignidade", ressaltou o deputado José Guimarães (CE).

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