O marxismo e o pé de feijão

Neste dia em que se espera, pensa-se e discute-se seleção brasileira e o poder do futebol sobre nós.

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“ou um abandonar-se às coisas com serenidade…(resguardando poéticamente em vez de fabricar)… e pôr-se no caminho por onde advém o que salva” 

Heideger, apud Zeljko Loparic in ETICA E FINITUDE, Ed. Escuta

Quando criança, uma das histórias que mais me fascinava era aquela do pezinho de feijão que crescia…crescia….crescia… até chegar ao céu. Parece que lá em cima havia um castelo meio encantado..Ficava eu imaginando a maravilha da “viagem”.

Não sei porquê esta lembrança me vem à cabeça. Mas é que hoje, por vez primeira, depois de uma penosa cirurgia e meses de tensões acumuladas – até onde o mal? Até onde a maldade? -, saí à rua para passear. Ia sem lenço, nem documento, como um jovem e Doce Bárbaro, del aire al aire, como una rede vacia, mãos dadas com Neruda nas “Alturas de Machu Pichu”. Só que sem qualquer overdose de mim mesmo. Eu, apenas, com minhas lembranças, vendo aqui e ali, nestas imagens que perpasso desde menino, no centro de Porto Alegre, os recortes do dia: Copa do Mundo. Hoje joga nos “Eucaliptos” - (?) opa! ,Beira Rio!!!! – Alemanha contra Argélia. As ruas apinhadas de gente, um sol generoso pela manhã bem cedo, que logo dá lugar ao plúmbeo inverno. Ninguém liga. Por todo lado, na Rua da Praia, vendedores de bugigangas, CDs piratas, carrocinhas de gulodices entremeadas por vendedores de cocadas e amendoins – ambos irresistíveis, mas sinto falta daqueles quadradinhos de papel esverdeado feitos com nozes -. Uma banda alemã salta da OKTOBERFEST, com vários casais vestidos a rigor entrelaçando passos, junta um monte de gente ao seu redor. Todos se entusiasmam…Alguns alemães, turistas, ficam pasmos… O Brasil existe ? pergunta-se o poeta. E os brasileiros…?

Ponto nevrálgico da efervescência é a esquina com a Borges de Medeiros. Procuro num canto a Agência da VARIG. Exercício de memória. Antes da VARIG lá existia uma agencia da PANAIR DO BRASIL. Ambas se foram…Tudo passa. Como dizia Simone de Beauvoir, até a vida: “ Quando somos jovens pensamos que temos uma vida pela frente. Depois, a imaginamos para trás. Tudo ilusão. Nunca se tem a vida. Ela simplesmente passa…” Remoo um sentimento negativo contra a crônica de Ernani Ssó no Sul21. Por que lembrar a boca suja de La Beauvoir, quando o que fica de todo o bom escritor, como ele próprio – e ela – é sua obra, não seus deslizes humanos? Ou sua vida. Vá o feito! Sigo em frente, vou atrás das ofertas dos sebos das redondezas. (Depois assinarei o ponto no Café do Mercado). Sempre que encontro algum clássico ao preço de banana, cumpro o ritual de retirá-lo do vexame. Onde já se viu um “A Leste do Éden”, ou um Marguerite Yourcenar, Hemingway, Sthendal ou Victor Hugo, ou “Contos de Huxley ou James Joyce , ficar exposto ao público, exangue…?

Mas que surpresa! Hoje , pela pechincha de R$ 5,00 encontro “Perspectivas do Homem”, do Roger Garaudy. Pego e pago logo, com medo de que alguém o faça antes de mim….Quem dera…! Ninguém mais deve saber quem foi Garaudy. Como já não sabem quem foi Lewis Mumford, que teve seu belo livro “ A condição de Homem” publicado pela Editora Globo no início da década de 50. E assim como Mumford deve ter impressionado a geração da “Revista Província de São Pedro”, Garaudy impressionou a minha, em Porto Alegre , uma década depois. Fico me perguntando que livro ou livros teriam causado algum impacto na geração ainda anterior, de “A Federação” -http://hemerotecadigital.bn.br/registros - , cujo líder maior, Julio de Castilhos, moldaria não só o Rio Grande do Sul republicano, mas, pelo seu descendente Getúlio Vargas, o Brasil Moderno pós-30…?

Voltemos ao “Perspectivas do Homem”. Era um livro caro. Ou será que o consegui “via Grego”…? A verdade é que meu exemplar, que li freneticamente, ficou pelo mundo. Tratava-se de um roteiro da Filosofia francesa com enorme ênfase na defesa do marxismo. Como não ler? Naquela época, como o próprio Garaudy, que depois (des)encaminhar-se-ia pelo espiritualismo, frisa, todas as correntes de pensamento, da esquerda católica à direita só se desdobravam retoricamente, como uma resposta ao marxismo. Podia até haver variações teóricas e tático-estratégicas do marxismo. Isaac Deutscher e Hobsbawn trataram vastamente delas. Mas a herança de Marx espalhava-se pelo mundo como religião avassaladora, só comparável ao grande êxito de Maomé, no século VII. Para os conservadores, Igreja inclusive, tratava-se de uma erva daninha, que tinha que ser extirpada a qualquer preço, sob o invólucro da Guerra Fria. Para nós, entretanto, era uma inspiração à vida.

E agora me explico porque comecei pelo pé de feijão: O marxismo, para nós, ainda em meados da década de 60, não era uma plantinha qualquer. Era uma planta mágica, simples e compreensível como um pé de feijão, mas que nos elevava, pelo pensar soberano, nada mais, nada menos, do que à salvação da humanidade. Graças a ele seríamos retirados do Reino da Necessidade para um nova Era de Fraternidade.

Não resisto e vou até o Mercado reler algumas partes do “Perspectivas”, entre um gole e outro do bom cafezinho. Quanta familiaridade! Quanta revivescência! Ó tempos…! E tudo passou. De repente me ocorre que guardei o volume de Lewis Mumford, comprado na Livraria Sulina na descida da Borges, perto da Demétrio, onde eu morava com o saudoso Fábio Marenco, por quase 40 anos. Me recusava a ler quem não fosse marxista… e ele, Mumford, era um culturalista. Fui lê-lo e me apaixonei pelo livro, que sempre que posso presenteio a amigos, só em 2005. Então compreendi, de repente, porque já ninguém lê Garaudy. Simplesmente ele saiu da ordem do dia, como saiu a Revolução, como saiu a reflexão crítica do marxismo, como saiu aquela idéia que lhe era tão cara de que a história era feita com consciência de classe, jamais ódios e ressentimentos, o não lhe retirava nenhum radicalismo. Ao contrário. Mas comportava uma ação reflexiva sobre a História, capaz de conceber um sujeito – o proletariado – de seus desdobramentos, ainda que emblemático, eticamente constituído e voltado à transformação do mundo através de uma calculada articulação prática entre o grande objetivo estratégico do socialismo e os passos indispensáveis ao salto. Era o fazer a História a partir da sua especifidade como condicionante de seu devir. Daí a condenação ao terrorismo, jogado à lixeira da História até que o fundamentalismo religioso, num faux pax, o ressuscitasse um século depois. Abria, aí, não só um espaço para o que ficaria conhecido como um arco de alianças políticas do Partido de classe, no rumo da transformação da sociedade, hoje reduzido à caricatura da governabilidade, mas uma ponte a construção de uma verdadeira hegemonia do proletariado a partir de pontos de convergência teórica com os campos opostos.

Como reitera, oportunamente, Garaudy ( cit. Ed. Civilização Brasileira, 1965, pg. 351/2):

“ O balanço de nossa busca do homem, do homem total, não nos parece negativo. Sê-lo-ia se nos achássemos em presença de pensamentos irredutivelmente opostos ou mesmo indefinidamente paralelos, sem possibilidades de encontros. Ora, pareceu-nos discernir, entre as diversas doutrinas contemporâneas, malgrado uma oposição fundamental ligada às perspectivas de classe, elementos de convergência.

Dois temas predominam:

( Transcendência e Movimento das forças operárias no mundo)…

Os dois pólos da atração da filosofia francesa contemporânea: transcendência e participação histórica ( que correspondem, aliás, às duas dimensões essenciais da vida espiritual) , acham-se assim estreitamente vinculados às duas características fundamentais da situação histórica, às duas preocupações basilares de nossos contemporâneos: crise e revolução

Apesar da sugestão conciliadora da passagem, todo o livro é uma reafirmação do marxismo como inspiração à práxis da construção do socialismo, no qual algumas evocações, tais como o Partido- vanguarda do proletariado – e a inevitável passagem pela ditadura de classe ,no umbral da nova ordem hoje, nos soe como impróprios. Mas a doutrina era tão empolgante que não afastava os mais libertários espíritos do mundo, mesmo na crista do existencialismo, como Sartre. Apenas ressaltava ele: a tarefa do intelectual é ser leal – à missão histórica do proletariado – , mas crítico, o que lhe custou, e à sua companheira Simone de Beauvoir, a ira eventual do Partido Comunista Francês. É que a arte e a Filosofia percebem com muita antecipação o que só o tempo acabará ensinando aos militantes.

Tomo meu último gole de café e reflito:

A verdade é que o marxismo, a revolução e o socialismo como referências foram se extinguindo no fim da década de 60, agudizados, seja pelo conflito sino-soviético, seja pelas invasões da URSS sobre Polônia e Tchecosváquia, seja pela generalização da crítica contra os gulags. O foquismo de Guevara na América Latina, com o apoio da Revolução Cubana, sob a palavra de ordem de incendiar o mundo com vários Vietnames, foi seu último suspiro, arrastando uma geração de combatentes contra as muralhas das ditaduras que se iam sucedendo no continente. Como sempre, foi um artista pouco afeito à essa agenda, John Lennon, quem o advertiu, precocemente, em 1970: – “ O sonho acabou…” Dez anos depois ele próprio seria silenciado por um insano tiro, depois de ter comovido os americanos em sua luta pela Paz , com o que se transformaria num verdadeiro slogan : “Give Peace a Chance” . A década posterior foi a pedra de cal : O muro de Berlim cai em 1989, a URSS desmorona em 1991, os tradicionais Partidos Comunistas da França, Itália e Espanha, até o o velho Partidão – PCB – no Brasil, reconvertem-se ao reformismo subserviente ao Consenso de Washington, coincidindo, paradoxalmente, com a identificação, por Norberto Bobbio, do Século XX como Século dos Direitos. Queríamos apenas o direito de fazer a Revolução e nos brindaram com uma enciclopédia deles justamente para que se confirmasse a hipótese de que a História chegaram ao seu fim. O sujeito potencial do devir capitula ao subjétil desejante de sociedades espetaculares globalizadas. O culto do corpo sucede o do espírito, o dos objetos à idéia que deles fazíamos, o da beleza visual o das virtudes, o da velocidade à carícia, anunciando um tempo em que os jovens se dispõe a morrer mais por baleias do que pela pátria, muito menos pela “classe”, que desconhecem, enquanto a tecnologia dá o grande salto à Era Cibernética. Esta – daí o nome, derivado do grego: piloto – introduz o inusitado, num verdadeiro salto qualitativo da civilização: o mecanismo da auto-regulação nos processos de reprodução. Tudo vira artefato. Acaba alterando não só a potência da comunicação, como o conjunto das relações em torno da produção, do poder, das artes e da Filosofia. O velho iluminismo fundado na esperança de razão vacila num pântano de novas (anti)narrativas. As Ciências Humanas desgarram do cientificismo galileico, evitam a idéia de progresso e evolução e se voltam cada vez mais às dimensões da subjetividade, do simbólico e do significante. O “eterno retorno”…Não só Kant, Marx, mas até Freud e mesmo a Teoria Crítica dos gurus da Escola de Frankfurt, que tanto nos embeberam na década de 60, envelhecem à luz de Lacan, Foucault e os novos Mestres Pensadores que lhes seguem.

Penso comigo: sobrevivi ao câncer e ao trauma da cirurgia. Mas cheguei à minha idade…

Encerro meu passeio, minha releitura do Garaudy, minhas reflexões diárias e esta coluna, feliz, como o sabiá de “Eis o Homem”, embora sozinho. Com saudades, sim, do meu querido século XX. Mas quê fazer…? Ele se foi e levou consigo não só meus melhores anos de juventude e muitos amigos. Levou o tempo, varrido pelo vento de mudanças que sequer percebíamos…Ao otimismo “cândido” daquela época, precocemente advertido por Voltaire, sucedeu-se o confronto com a finitude do homem e da metafísica, da qual não escapou o infinitismo salvacionista de Marx :

A morte das utopias e do messianismo secularizado sinaliza o meã-culpa das éticas infinitistas. Também perderam a força as idéias correlatas do progresso e da perfectibilidade do homem. A fantasia de criar o “novo homem”, quando prevaleceu, revelou-se um caminho de retorno à barbárie. O próprio conceito de história caiu em descrédito. Fala-se até em fim da história. Não no sentido do cumprimento de um destino, mas, pelo contrário, de substituição do “movimento de totalização” pela “administração total” dos conflitos que vão aparecendo.

(ETICA E FINITUDE – ETICA E FINITUDE – Ed. Escuta – Zeljko Loparic

Claro que muitos os ideais igualitários que vivenciamos no século XX continuam presentes na forte influência da esquerda na cena política latino-americana. Basta ver o mapa abaixo, francamente dominado pelos diversos tons do vermelho:


Mas não se trata, aqui, de avaliar a sobrevivência daqueles ideais, enquanto parodias políticas. Apenas de verificar como eles perderam o poder irresistível de encantar gerações.



Paulo Timm é economista, Pós Graduado ESCOLATINA , Universidade do Chile e CEPAL/BNDES, Ex Presidente do Conselho de Economia DF – Professor UnB. Email – paulotimm@hotmail.com.

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