A estratégia de Dilma e a síndrome de Jango

Um post do Nassif para a gente refletir em um momento tão delicado.
Por um lado, temos uma oposição golpista, que perdeu o escrúpulo de defender o golpe. Perdeu a vergonha a ponto de, citada também no escândalo da Petrobras, querer impeachment acusando PT de ser o rei, sozinho, da corrupção.
O engraçado é que toda esta corrupção já existia antes e nunca foi investigada. Agora que está sendo e pessoas estão sendo presas, acusam o governo que permite e incetiva as investigações, de ser o único dono da bola.
É claro que eu esperava mais do PT, mas esta é a conjuntura que temos e é com ela que temos que governar.
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A estratégia de Dilma e a síndrome de Jango

Estão certos os colegas que comparam as estratégias esboçadas por Dilma Rousseff com as lições do período João Goulart.
Na época, a melhor análise em cima dos fatos foi dos jovens Carlos Araújo – com quem, mais tarde, Dilma se casou – e Wanderley Guilherme dos Santos.
Perceberam, ainda em 1962, a desvantagem de Jango em relação ao arco conspiratório. E intuíram, com enorme propriedade, que partir para o enfrentamento - com a tal história de “o povo unido jamais será vencido” - coroaria o suicídio político.
Os ministros ortodoxos nunca foram o problema para Jango. Naquela conjuntura de descontrole das contas públicas e dos preços, não seguir suas recomendações, sim.
Walther Moreira Salles, no início, Carvalho Pinto, no final, eram pontos de apoio junto aos segmentos de poder institucionais – empresariado nacional, sistemas financeiro internacional, Justiça e militares. Justamente por serem avalistas de um programa de ajustes, depois que a farra criativa e irresponsável de JK arrebentou com as contas públicas e elevou a inflação.
Aqui, uma diferença central com Getúlio, que sempre praticou políticas fiscais responsáveis.
Nem se imagine que fossem cegos seguidores da ortodoxia. Na Fazenda, Moreira Salles fez uma dobradinha criativa com o Ministro do Trabalho Franco Montoro, permitindo aumentos reais do salário mínimo.
O primeiro ministro Tancredo Neves também entendia a necessidade de disciplinar os gastos públicos. Mas a frente política que apoiava Jango era famélica, especialmente em cima da conta movimento do Banco do Brasil. Aliás, a maior influência espúria sobre o Banco do Brasil era do senador Jereissatti – pai do futuro senador Tasso Jereissatti. E Jango não dispunha da necessária energia para segurar esses movimentos. Não poucas vezes, Tancredo e Moreira Salles foram surpreendidos pelas concessões de Jango.
A necessidade da freada de arrumação foi reconhecida pelo próprio Celso Furtado – o Ministro desenvolvimentista – quando montou seu Plano Trienal, com reformas estruturais relevantes e ousadas, mas com conservadorismo no programa de estabilização. Aliás, indicado Ministro da Fazenda na Argentina, o próprio Raul Prebisch – o mais relevante criador da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina) – foi um Ministro cauteloso. Ambos sabiam que inflação desorganiza países e derruba governos.
A dubiedade de Jango
O problema maior de Jango foi sua dubiedade.
Tinha-se, de um lado, um enorme alarido para desestabilizar o governo, manobrado pelos grupos de mídia, pelas marchas da família. Cauteloso, Wanderley Guilherme dos Santos alertava: não deem corda; o que eles querem é que se parta para o confronto, pois isso legitimará o golpe.
Na outra ponta, escudado na campanha heroica de resistência que comandou em Porto Alegr - e que garantiu a posse de Jango - Leonel Brizola propunha a radicalização.
Jango balançava, então, entre seus pontos de contato com o mundo institucional encastelado no Rio – particularmente Moreira Salles, San Tiago Dantas e Tancredo – e as multidões que Brizola conseguia levar às ruas.
O equilíbrio era difícil. Se se afastasse muito da militância, Jango poderia ficar sem nada. Se endossasse a militância, forneceria o álibi que a direita precisava. Não soube encontrar o meio termo, embora tivesse toda a convicção de que o caminho correto seria a composição – conforme atestou Almino Affonso recentemente.
Essa dubiedade também se manifestou na política econômica.
Em um momento de crise com organismos internacionais, Moreira Salles se dispôs a viajar para Paris para negociar com Giscard D’Estaing. A condição para o acordo era Jango não encaminhar ao Congresso a nova proposta sobre Lei de Remessa de Lucros.
Antes disso, em uma reunião do Gabinete de Tancredo, Jango colocou na frente de cada Ministro um trabalho do economista gaúcho Cibillis da Rocha Vianna, com propostas de crescimento rápido que, naquele momento, contrastavam totalmente com a necessidade de arrumar as contas públicas.
Moreira Salles saiu do Rio  com a garantia expressa de Jango que vetaria o projeto. Ao chegar na reunião, foi informado pelo próprio Giscard que o Congresso não havia seguido o combinado.
Moreira Salles voltou para o Rio disposto a pedir demissão.  No seu apartamento, foi procurado por Brizola e Brochado da Rocha pedindo que na carta de demissão atribuísse seus problemas ao parlamentarismo. O problema, de fato, não era o parlamentarismo.
Foi sucedido por Brochado da Rocha, para preparar a volta ao presidencialismo.
A partir dali, a radicalização aumentou, estimulada pelo aumento do descontrole na economia. O ápice foram as manifestações dos cabos e sargentos por seus direitos políticos, acendendo a luz vermelha da indisciplina no Estado Maior das Forças Armadas. E terminou com o trágico comício da Central do Brasil, que precipitou a queda de Jango.
Assistindo o filme, “O dia que durou 25 anos” – sobre o golpe contra Jango – Dilma se emocionou com o paradoxo da cena do comício da Central com a enorme solidão de Jango.

A estratégia de Dilma

A partir das reflexões sobre o governo Jango é possível entender a nova lógica por trás dos movimentos de Dilma.
No campo econômico, a cautela para não perder o controle da economia, valendo-se, agora, de dois avalistas junto ao empresariado – Joaquim Levy e Nelson Barbosa.
No campo social, no primeiro governo houve a cautela excessiva para não proceder a qualquer movimento que reforçasse o alarido da mídia com o “bolivarismo”. Isso explica, em parte, a extrema insensibilidade para com os movimentos sociais no primeiro governo. Em qualquer movimento, bastava os grupos de mídia levantarem a história do “bolivarismo” para Dilma recuar.
Aparentemente, no decorrer da campanha eleitoral deu-se conta do exagero e passou a entender a importância das organizações sociais como fator de aprofundamento democrático, não de resistência revolucionária. Nesse sentido, as declarações dadas hoje ao Frei Betto e Leonardo Boff (http://surl.me/rpjg) são significativas do novo momento.
Segundo a matéria: “Após o encontro, Leonardo Boff afirmou que a própria presidente reconheceu a falta de contato com as bases. “[Dilma] se ocupava muito com a administração dos grandes projetos. Ela disse que a partir de agora será um ponto alto do seu governo um diálogo permanente, orgânico, contínuo, com os movimentos sociais, e com a sociedade em geral”, afirmou.
E, como ninguém é de ferro, não se espere enfrentamento na questão da mídia e das redes sociais.

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